Outro dia me peguei pensando sobre quando não existiam as telas e as postagens em tempo real e o ser humano ainda sabia ver o mundo sem uma tela na frente. Sem moldura, sem filtro, sem a obrigação de registrar. Será que ainda se sabe apenas olhar?
Vive-se num tempo em que tudo parece ter virado imagem. A comida que comemos, o lugar onde estamos, o rosto que mostramos, tudo parece existir para ser fotografado, postado, curtido. Parece que, se não virou imagem, não aconteceu. E se ninguém viu, será que foi real?
As imagens já não são mais só recordações. São performances, declarações, produtos. Não basta viver e ser, é preciso mostrar o que se vive e o que se tem. Não basta sentir, é preciso mostrar o que se sente. Estamos todos, de alguma forma, encenando versões de nós mesmos para um público ilusório, esperando aplausos em forma de likes.
E então fico me perguntando: nesse mundo feito de imagens, o que é real?
Talvez sejam aquelas que não precisam de aplausos. A fotografia borrada de um abraço de verdade. O pôr do sol que ninguém viu porque estava somente olhando e sentindo. O sorriso que não foi registrado nas câmeras, mas esta nossa memória real.
Mas há também aquelas imagens que não vêm de fora. São as que moram dentro: lembranças, sonhos, fantasias. A imagem que temos de nós mesmos quando ninguém está olhando. A infância que volta em flashes. O rosto de alguém que amamos e que aparece, de repente, no meio da tarde. Essas são imagens que não postamos, mas que nos habitam e que nos moldam por dentro.
A verdade é que estamos imersos num mar de imagens que muitas vezes já não mostram nada. Elas simulam, seduzem, distraem. Mostram vidas perfeitas que não existem e que muitas vezes são um gatilho para as imagens internas que carregamos por uma vida e que causam grandes ansiedades. E quanto mais consumimos essas imagens, mais nos distanciamos do real. Daquilo que é imperfeito, mas verdadeiro. Silencioso e presente.
Às vezes, penso que a imagem virou um espelho que seguimos tentando encontrar nosso reflexo nele.
Talvez o segredo seja reaprender a ver, ver de verdade. Ver o outro sem a pressa de julgar. Ver a si mesmo sem a obrigação de parecer melhor. Ver o mundo sem o desejo constante de capturá-lo. Apenas ver.
Porque, no fundo, a realidade continua ali, dentro de você. No cheiro do café recém passado, num olhar que não se registra e que não é capaz de mentir, ele diz tudo sobre você, é a porta da alma.
Num mundo feito de imagens, talvez a maior coragem seja viver aquilo que não cabe numa foto.



