Minha busca constante que nomeio de “noite escura da alma”, inspirada em São João da Cruz, esteve, e ainda está profundamente conectada ao movimento de ressignificar a imagem da minha mãe dentro de mim, na alma, a imagem da mãe interna, que é a que se leva para a vida, até os cinco anos de idade eu tinha uma mãe e a partir daí, eu fiquei eternamente esperando que essa mãe retornasse e ela nunca mais voltou, o que eu não sabia é que ela nunca se foi, pois sempre esteve em mim.
Mas esse encontro não diz respeito apenas a fazer as pazes com essa mãe que pulsa em mim. Trata-se de compreender as marcas que ela deixou, marcas que habitam minha pele, minha alma, meu ser. Marcas que moldam meu caminho, tanto no plano físico quanto espiritual. Elas me permitiram viver novas experiências etambém reverberam nas minhas filhas, que carregam, em si, não apenas as marcas da minha mãe através de mim, mas também as minhas, e as delas próprias e deoutras mulheres que vieram antes. São marcas de uma história pessoal, familiar e coletiva. Uma história que continua, mas agora com a possibilidade de ser escrita com mais leveza.
Podemos pensar que toda a nossa experiência de vida está, de alguma forma,entrelaçada à figura da mãe. Como se fôssemos elos de uma grande corrente, de mulheres que vieram antes. E carregamos a imagem da mãe boa e a imagem da mãe má. E muitas vezes carregamos imagens das quais se formaram em nós e que não são reais, não fazem parte da mãe real e sim da mãe psíquica, criada por nós,a forma como nós introjetamos.
Aqui, falo da mãe interna, aquela que construímos dentro de nós. Aquela que foi sendo formada desde a infância, a partir das vivências, olhares, ausências, afetos e expectativas. Muitas vezes, passamos a vida tentando atender às demandas dessa mãe internalizada, buscando por ela fora de nós, principalmente nos relacionamentos afetivos, sem perceber que ela não está lá, e que muitas vezes natentativa de encontrar essa mãe da qual temos expectativas e nos relacionamoscom essas expectativas, acabamos trazendo para nós exatamente a parte dela que é mais forte em nós e sem perceber estamos nos relacionando fora com os nossos julgamentos, nossas críticas, nossos medos, em relação à figura da mãe. E esse movimento constante de busca pode gerar frustração profunda.
Falo também daquela mãe real que, em algum momento, por causa da dor, deperdas ou da vida, se afastou de si mesma. E, ao se perder de si, também se perdeu de nós. Embora fisicamente presente, algo nela já não estava mais acessível. E assim passamos a esperar, dia após dia, inconscientemente que ela volte.
Falo da mãe ambígua, que às vezes é puro amor, e em outras, é rígida, severa,imprevisível. A mãe diante da qual andamos em silêncio, com cuidado, pisando em ovos, pois nunca sabemos como ela reagirá. E, muitas vezes, todas essas versões se manifestam ao mesmo tempo, o que nos confunde ainda mais.
Diante disso, me pergunto: Onde está a minha dor?
E, com delicadeza, me faço uma nova pergunta: Onde está o meu amor?
Está justamente nesse lugar, onde se faz necessário transformar esse amor cego, que adoece em um amor que vê, um amor claro, um amor que cura.
Percebo então que o meu amor está aqui, nesta escrita.
Meu amor está em me colocar a serviço. Em olhar, com compaixão, para a dor detantas pessoas. E fazer isso porque consigo me ver nelas. Porque a dor do outro me traz pedaços meus que haviam ficado pelo caminho. E, quando os reconheço,posso integrá-los.
Hoje, compreendo com mais clareza:
Onde está a minha dor, está também o meu amor. E onde habita o meu amor,começa a se construir a minha paz.
Diante disso, estou aqui para convidá-los a olhar para essa Mãe. Em outubro, mêsdo arquétipo da Grande Mãe para nós, aqui no Brasil, e também das crianças, te convidamos a refletir sobre essas questões em uma vivência profunda, amorosa e gentil, onde você poderá dar um passo em direção a um novo caminhar.
Traremos mais reflexões sobre esse trabalho e mais detalhes em breve. Enquantoisso, vá refletindo sobre essa Mãe.



